3.1.12

 

Alguns Apontamentos sobre o Calendário Gregoriano.



Sendo o assunto dos calendários curioso, mas algo complexo, nas suas múltiplas questões, desde as astronómicas, às religiosas e tendo verificado que existem tantas confusões, nomeadamente a respeito das diferenças entre o calendário juliano e o gregoriano, aquele por que quase todo o mundo hoje se rege, decidi alinhar aqui alguns apontamentos sobre tão intrigante matéria.


Em notas muito sumárias, darei conta daquilo que retive das leituras que fiz, com maior afinco, há cerca de doze a quinze anos, por altura do fim do século XX e da discussão que então se gerou sobre o início da era de Cristo e o ano de entrada no terceiro milénio.


Li, por esse tempo, alguns livros sobre o tema e assuntos correlatos, mas, entretanto, com o tempo decorrido, havia esquecido alguns pormenores.


Anoto a seguir o que de novo averiguei :



1. O calendário gregoriano ganhou este nome do Papa Gregório XIII que, em 1582, encarregou alguns dos seus colaboradores e astrónomos de estudarem o assunto do calendário, para depois proporem a reforma do calendário até então em vigor no mundo cristão ocidental, o chamado calendário juliano, do tempo de Júlio César; tinha-se tornado evidente a falta de correspondência entre o início das estações do ano e as datas que o assinalavam ;



2. O calendário juliano baseava-se na duração de 1 translação da Terra em torno do Sol, avaliada em 365 dias e 1/4. Por ele, o ano comum tinha 365 dias e os anos bissextos, de 4 em 4 anos, 366;



3. Acontece que a duração real da translação da Terra difere um pouco do valor considerado no calendário juliano, sendo aquela conhecida como a duração do Ano Trópico, que vale 365,2422 dias;



4. No final do século XVI, as diferenças acumuladas assumiam importância significativa, fazendo com que as estações não coincidissem com as datas, antecipando-se aquelas em relação a estas;



5. A diferença entre o ano juliano e o trópico (valor considerado como real ou muito mais aproximado da duração real) era de 365,2500 - 365,2422 = 0,0078 dias ou 11,232 minutos ou 11 min e 13,92 s;



6. Na reforma gregoriana, introduziram-se algumas alterações ao calendário juliano; o ano comum continuaria com 365 dias, manter-se-ia a periodicidade de 4 anos para os anos bissextos (anos divisíveis por 4), com os seus 366 dias; no entanto, os anos que terminavam centúrias não divisíveis por 400 (por ex., 1700, 1800, 1900) não seriam bissextos, como no juliano, mas 1600 e 2000 já o seriam; havendo neste período de 400 anos 97 intercalações de anos bissextos, calcula-se este lapso de tempo como : (365 x 400) +97 = 146 097 dias, valor que, divido pelo período de anos considerado – 400 – dá o valor da duração do ano gregoriano: 146 097/400 = 365,2425 dias, valor que fica entre o do ano trópico e o do juliano – 365,2422 < 365,2425 < 365,2500 – ou seja o valor adoptado para a duração do ano gregoriano difere do do ano trópico de : 365,2425 – 365,2422 = 0,0003 dias ou 25,92 s, o que representará, mesmo assim, com esta maior aproximação, 1 dia ao cabo de 3 333,33 anos, tendo sido, por isso, proposto que os anos de 4 000 e seus múltiplos deixassem de ser anos bissextos, como mandaria a regra estabelecida no calendário gregoriano, para passarem a ser anos comuns, com 365 dias;



7. Mesmo assim, o rigor não é total, como se vê, procedendo-se a correcções. Acresce que as durações dos movimentos da Terra, rotação, em torno do seu eixo e translação, em volta do Sol, tão-pouco são constantes, sofrendo ligeiríssimas alterações, que, acumuladas, ao longo de milénios, produzem efeitos, continuando a haver motivo para rectificações;


Estas anotações contêm assim as principais características da reforma do calendário juliano, o qual com elas se passou a designar de gregoriano, embora daquele não difira significativamente. A designação de juliano-gregoriano talvez se lhe ajustasse melhor. Passou, no entanto, à história com o nome de calendário gregoriano.


Em Portugal, como noutros países católicos, este calendário reformado entrou em vigor, logo a seguir à data da sua publicação, em Roma, a 4 de Outubro de 1582.


Nos países em que dominavam as variantes religiosas cristãs, protestantes ou ortodoxas, houve resistências várias, não só pelo facto de a Reforma ter partido de Roma, como pelo facto de se abolirem 10 dias do calendário de então, saltando-se de 4 para 15 de Outubro, em 1582, para se anular a diferença acumulada, como atrás explicado.


Neste caso, a oposição provinha, sobretudo, dos banqueiros, que teriam de pagar juros de dias efectivamente não vencidos, porque suprimidos do calendário. Também este factor contribuiu para a entrada tardia em vigor do calendário em Inglaterra e nas suas colónias, que só em 1752 o adoptaram.


As Igrejas Cristãs Ortodoxas do leste europeu, todavia, ainda hoje se regem pelo calendário juliano. E desta relutância em aceitar determinações ou recomendações de Roma católica, resultou também que a Revolução Socialista de Outubro, na Rússia, onde vigorava o credo ortodoxo, tivesse sido registada a 25 de Outubro de 1917,embora no Ocidente, o mesmo facto histórico ficasse assinalado a 7 de Novembro.


Entretanto, para facilitar as relações internacionais, os Estados acabaram todos eles por adoptar o calendário gregoriano, tendo a Grécia e a Turquia sido dos últimos a fazê-lo, nos anos 20 do século passado.


Bem mais complexas são as questões relacionadas com outros calendários, nomeadamente o judeu e, em menor escala, o muçulmano, pela forte influência da tradição religiosa na sua manipulação.


Na História, o esforço de racionalização prossegue e mais correcções surgirão no futuro, salvo se a Humanidade, por desorientação ou desespero, desistir de confiar na Ciência e preferir um dia voltar aos cultos primitivos, aos mitos fantásticos da criação e destino do Mundo, como, por vezes, parece suceder no tempo sumamente contraditório em que vivemos.



AV_Lisboa, 03 de Janeiro de 2012


Comments:
Interessante seria se fosse adoptado um calendário de 13 meses, com quatro semanas cada um, em que cada dia numérico recairia sempre no mesmo dia da semana.

Dado que 52 semanas perfazem 364 dias, o dia 1 de Janeiro, dia de Ano Novo, seria tratado sempre como dia extra, sem contagem semanal, mantendo-se dia feriado como é tradição.

Nos anos bissextos, ao dia 1 seguir-se-ia um segundo dia extra, também feriado para as adequadas celebrações, e também sem contar para a sequência semanal.

Se o dia 1 de cada mês fosse associado a um Domingo, o dia 13 seria sempre uma sexta feira. E se vários feriados fossem endereçados para uma sexta-feira 13, certamente acabaria o mito de dia azarado...

Enfim, isto traduz uma velha conjectura minha, mas a verdade é que ainda hoje li no Diário de Notícias, na internet, que uns
Professores da Universidade de John Hopkins, nos Estados Unidos, querem reformar o calendário.

Abraço
Jorge Oliveira
 
Caro Jorge OLiveira,

Agradeço o comentário, com a engenhosa sugestão nele contida, que me parece até mais interessante e mais prática, i.e., funcional, operativa que a proposta do calendário permanente ou perpétuo, creio, dos dois Professores da Universidade John Hopkins.
Desde logo porque estes vêm logo com a alegação de que tal inovação aumentaria a eficiência económica ou a competitividade das Empresas, argumento que tem servido amiúde para diminuir direitos e proventos dos trabalhadores, para os transferir, por acumulação, para os Administradores ou Gestores das Empresas.
Depois, porque me parece também que andamos a endeusar a Economia, subjugando-lhe tudo o mais, incluindo a vida. Sendo certo que todo o ser humano precisa de trabalhar para prover ao seu sustento e para isso terá de inserir-se no circuito económico, julgo que não podemos perder a perspectiva humanista, para que não nos transformemos em escravos ou robots de um Sistema Económico, muitas vezes manipulado, deturpado para satisfazer interesses particulares, egoístas em extremo, que até se revelam insaciáveis. É isto que me assusta.
Quanto ao calendário «revolucionário», acho que a proposta mereceria adequada divulgação, talvez na Sociedade de Matemática ou no Observatório Astronómico de Lisboa, ambas as entidades com fóruns próprios na Internet.
Um abraço e grato pelo contributo.
 
Ora aí está,um tema interessante que até já dinamiza outras ideias e dá a conhecer um pouco da história do nosso calendário; parabéns.
Ao Jorge Oliveira, gostaria de perguntar se, para além das curiosidades que já nos apresentou,tem em mente algum aspecto prático que justificasse o hercúleo esforço necessário à mudança.
Isso de fazer anos sempre no mesmo dia da semana,poderia ser desastroso!....


H. Farol
 
Para além de pôr ordem num calendário tão irregular como aquele que utilizamos, não vejo outro aspecto prático.

Esforço hercúleo não me parece que fosse. A substituição, pelo Euro, das moedas nacionais de vários países, isso foi, mas fez-se.

E não me incomodaria fazer anos sempre no mesmo dia da semana. Talvez fosse uma forma de não me esquecer quando chegasse o primo da Alemanha...

Cumpr, JPO
 
Parabéns António Viriato (AV) pelo seu interessante artigo, que contribui para o nosso maior conhecimento acerca de uma questão tão importante no dia-a-dia, mas habitualmente menorizada.
Fico à espera de poder ler o resultado de idêntica reflexão sua acerca de outros sistemas de contagem do tempo (hebraico, muçulmano, chinês...), e confesso que até agora não me tinha ocorrido fazer uma pesquisa acerca da clara relação existente entre os calendários e as mitologias religiosas.
A essa luz ganha particular interesse a ideia apresentada por Jorge Oliveira (JO).
Além de ser engenhosa e funcional, ela permitiu-nos de imediato apreciar o comentário que lhe dedicou o AV.
Da leitura deste último texto, e da designação de "revolucionário" que AV atribui à sugestão de JO, fiquei interessado em saber mais acerca do calendário revolucionário usado em França no período da Revolução Francesa de 1789.
Não quer o amigo AV ajudar-nos a satisfazer estas curiosidades?
 
Caro Leitor J.A.Miranda,

Agradeço a sua leitura atenta.

Tentarei corresponder à sua sugestão de abordar o assunto do calendário engendrado pelos revolucionários franceses de 1789, mais fácil de tratar do que os calendários lunares judaico e muçulmano. Estes, sobre serem mais complexos, têm fortes conotações religiosas, pelas quais não me interesso particularmente, embora as respeite, sobretudo as da cultura judaica, pela sua ligação com a cristã, que daquela é legítima herdeira. A muçulmana não colhe a minha simpatia, pelo fundamentalismo que, no presente, a domina, grave obstáculo à sua aceitação convivencial, na Europa, principalmente.
Entretanto, tenciono escrever mais alguma coisa sobre a sem-razão do chamado AO da LP de 1990, em resultado de recentes leituras acerca dos Gramáticos Portugueses do Século XVI e da Reforma Ortográfica da LP de Aniceto Gonçalves Viana, de 1911.
Veremos como me sairei da gestão destes dois interessantes temas.
Um abraço.
 
Sou a favor de cortar os meses de Janeiro e Fevereiro do calendario gregoriano e deixar como ele está, por que essa parte do calendario sofre alterações devido a 29/02, a parte comprendida entre 01/03 até 31/12

 
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